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Barreira Cutânea

há 1 dia
5 min de leitura
Barreira Cutânea
Barreira Cutânea

Entender a barreira da pele é o primeiro passo para tratar a pele com segurança

Quando pensamos em uma pele bonita e saudável, é comum lembrarmos imediatamente de colágeno, manchas, rugas, acne ou hidratação. Mas existe uma estrutura que precisa estar funcionando adequadamente antes de praticamente qualquer estratégia de cuidado: a barreira cutânea.

Ela não é apenas uma “camada de proteção”. A barreira cutânea participa do controle da perda de água, da defesa contra agentes externos e da manutenção do equilíbrio necessário para o funcionamento da pele. Hoje, a literatura científica descreve a barreira como um sistema integrado que envolve componentes físicos, químicos, microbiológicos e imunológicos. PubMed

Onde está a principal barreira da pele?

Grande parte da função de barreira está localizada no estrato córneo, a camada mais externa da epiderme.

Uma das formas clássicas de entender sua organização é o chamado modelo “tijolos e cimento”. Os corneócitos funcionariam como os tijolos, enquanto os lipídios encontrados entre essas células formariam o “cimento” que ajuda a manter toda essa estrutura organizada. SciELO

Entre os principais lipídios presentes nessa matriz estão ceramidas, colesterol e ácidos graxos livres. As ceramidas têm papel especialmente importante na organização das estruturas lamelares do estrato córneo e na manutenção da função de permeabilidade da pele. Alterações quantitativas ou qualitativas nesses lipídios podem estar relacionadas à redução da eficiência da barreira. PubMed

Portanto, a barreira cutânea depende muito mais do que simplesmente “passar hidratante”.

Hidratação e barreira cutânea são a mesma coisa?

Não.

Elas estão diretamente relacionadas, mas não são sinônimos.

O estrato córneo precisa manter água em quantidade adequada para funcionar corretamente. Esse equilíbrio depende, entre outros fatores, dos lipídios intercelulares e de substâncias higroscópicas presentes nos corneócitos, conhecidas coletivamente como Fator Natural de Hidratação — NMF. Parte desses componentes está relacionada ao metabolismo da filagrina. PubMed

Quando a capacidade de retenção hídrica está prejudicada, pode ocorrer aumento da perda de água transepidérmica, conhecida pela sigla TEWL (transepidermal water loss).

A TEWL é amplamente utilizada em pesquisas como um dos parâmetros para avaliação da integridade da função de barreira. De maneira geral, aumento da perda transepidérmica de água pode estar associado a maior comprometimento da barreira. PubMed

É por isso que uma pele pode receber cosméticos hidratantes e ainda assim continuar apresentando sinais de desequilíbrio se a causa do comprometimento da barreira não for considerada.

O que acontece quando a barreira é alterada?

Uma barreira íntegra ajuda a limitar a perda excessiva de água e a entrada de agentes externos. Quando essa organização é comprometida, aumenta a permeabilidade do estrato córneo e podem surgir manifestações como ressecamento, sensação de repuxamento, descamação, ardor, irritação e maior reatividade.

A literatura também mostra que alterações da barreira fazem parte da fisiopatologia de diferentes condições dermatológicas, como dermatite atópica, dermatite de contato, psoríase e algumas formas de ictiose. Isso demonstra que barreira cutânea não é apenas um conceito cosmético: trata-se de um componente fundamental da fisiologia da pele. PubMed

Na dermatite atópica, por exemplo, alterações do estrato córneo, dos lipídios e de proteínas relacionadas à diferenciação epidérmica estão associadas à xerose e ao aumento da perda transepidérmica de água. Uma revisão brasileira publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia descreve a hidratação do estrato córneo e a TEWL como parâmetros relacionados ao grau de dano da barreira. SciELO

Ceramidas: por que se fala tanto nelas?

As ceramidas constituem uma parte fundamental dos lipídios do estrato córneo.

Elas participam da formação das estruturas lipídicas organizadas entre os corneócitos, contribuindo para reduzir a perda excessiva de água e para limitar a penetração de substâncias externas.

Estudos demonstram que alterações no conteúdo e no perfil das ceramidas podem ser observadas em condições nas quais a função de barreira está prejudicada. Por esse motivo, formulações tópicas contendo ceramidas têm sido estudadas como uma das estratégias para auxiliar na recuperação da hidratação e da organização da barreira. PubMed

Mas há um detalhe importante: não basta simplesmente ler “ceramidas” no rótulo. A composição, a associação com outros lipídios, a formulação e a maneira como esses componentes estão organizados também influenciam seu desempenho cosmético. PubMed

E o pH da pele?

A superfície cutânea apresenta naturalmente um ambiente levemente ácido. Esse equilíbrio participa de processos enzimáticos do estrato córneo e também da interação da pele com sua microbiota.

Por isso, limpeza excessivamente agressiva ou produtos inadequados podem interferir não apenas na quantidade de lipídios presentes na superfície, mas também no ambiente químico necessário para o equilíbrio da pele. BVS Saúde

Um estudo brasileiro disponível na BVS/BIREME avaliou pacientes com dermatite atópica e demonstrou que uma higienização suave com produto desenvolvido para esse tipo de pele foi associada à preservação da barreira, aumento da hidratação e redução da perda transepidérmica de água. Os próprios autores destacam a importância de remover sujidades sem provocar deslipidização excessiva ou alterações importantes do pH. BVS Saúde

Mais procedimento nem sempre significa mais resultado

Na estética, esse conhecimento é especialmente importante.

Esfoliações, peelings, microagulhamento e outros procedimentos capazes de modificar temporariamente a integridade do estrato córneo precisam ser realizados com avaliação, indicação e cuidados adequados.

No microagulhamento, por exemplo, estudos que avaliaram a TEWL demonstraram uma alteração transitória da função de barreira decorrente da formação dos microcanais, seguida de recuperação progressiva. Isso reforça a importância de compreender o momento biológico da pele antes, durante e depois de uma intervenção. PubMed

O profissional não deveria observar apenas “qual ativo usar”, mas também perguntar:

Como está essa pele antes de receber o procedimento?

Essa mudança de raciocínio faz diferença.

Preparar a pele também é tratamento

Uma pele sensibilizada, excessivamente ressecada ou com sinais de comprometimento de barreira nem sempre precisa de mais estímulo naquele momento.

Em determinadas situações, o melhor planejamento começa com medidas para favorecer hidratação, equilíbrio lipídico, limpeza adequada e recuperação da função de barreira, antes de introduzir procedimentos mais intensivos.

A ciência atual reforça que hidratantes podem atuar por mecanismos diferentes, utilizando componentes oclusivos, umectantes e emolientes e, dependendo da formulação, auxiliar diferentes aspectos da barreira física e química da pele. PubMed

A estética começa pela avaliação

Não existe protocolo realmente individualizado quando todas as peles recebem exatamente a mesma sequência de produtos e procedimentos.

Avaliar a barreira significa observar sinais clínicos, histórico de cuidados, sensibilidade, hidratação, exposição a agentes irritantes e os procedimentos realizados anteriormente.

É essa análise que permite decidir se a pele está pronta para ser estimulada ou se primeiro precisa ser preparada.

Barreira cutânea não deveria ser lembrada apenas quando a pele apresenta uma intercorrência. Ela deve fazer parte do raciocínio antes do procedimento.

Essa é uma das diferenças entre simplesmente executar uma técnica e compreender verdadeiramente a pele.


Referências científicas

  1. ADDOR, F. A. S.; AOKI, V. Barreira cutânea na dermatite atópica. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 85, n. 2, p. 184–194, 2010. DOI: 10.1590/S0365-05962010000200009. Artigo disponível em SciELO e Portal CAPES. SciELO  

  2. PROKSCH, E.; BRANDNER, J. M.; JENSEN, J. M. The skin: an indispensable barrier. Experimental Dermatology, v. 17, n. 12, p. 1063–1072, 2008. DOI: 10.1111/j.1600-0625.2008.00786.x. PubMed PMID: 19043850. DOI  

  3. UCHIDA, Y.; PARK, K. Ceramides in Skin Health and Disease: An Update. American Journal of Clinical Dermatology, v. 22, n. 6, p. 853–866, 2021. DOI: 10.1007/s40257-021-00619-2. PubMed PMID: 34283373. PubMed  

  4. RAJKUMAR, J.; CHANDAN, N.; LIO, P.; SHI, V. The Skin Barrier and Moisturization: Function, Disruption, and Mechanisms of Repair. Skin Pharmacology and Physiology, v. 36, n. 4, p. 174–185, 2023. DOI: 10.1159/000534136. PubMed PMID: 37717558. PubMed  

  5. ADDOR, F. A. S.; SILVA, V. M. Barreira cutânea na dermatite atópica: o valor de um limpador adequado. Surgical & Cosmetic Dermatology, v. 5, n. 2, p. 128–132, 2013. Disponível na Biblioteca Virtual em Saúde – BVS/BIREME. BVS Saúde  

  6. KONO, T.; MIYACHI, Y.; KAWASHIMA, M. Clinical significance of the water retention and barrier function-improving capabilities of ceramide-containing formulations: A qualitative review. The Journal of Dermatology, v. 48, n. 12, p. 1807–1816, 2021. DOI: 10.1111/1346-8138.16175. PubMed  

  7. GOMAA, Y. A. et al. Effects of microneedle length, density, insertion time and multiple applications on human skin barrier function: assessments by transepidermal water loss. Toxicology in Vitro, v. 24, n. 7, p. 1971–1978, 2010. DOI: 10.1016/j.tiv.2010.08.012.


 
 
 

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